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Gasometria arterial: valores de referência, interpretação e a importância do íon cloro

Tabela com valores de referência da gasometria arterial e venosa em adultos: pH, pCO2, pO2, sO2, bicarbonato, excesso de base, lactato, cloro e cálcio ionizado

A gasometria é o exame que mostra, em poucos minutos, como estão a oxigenação, a ventilação e o equilíbrio ácido-base do paciente. Por isso é rotina em UTI, pronto-socorro, centro cirúrgico e no acompanhamento de pacientes com doença respiratória, renal ou metabólica. Neste guia reunimos os valores de referência mais usados para adultos, a diferença entre gasometria arterial e venosa, um roteiro de interpretação e o papel do íon cloro, que muitas vezes passa despercebido no laudo.

Valores de referência da gasometria em adultos

A tabela abaixo reúne os intervalos mais citados na literatura para adultos em ar ambiente, ao nível do mar. Cada laboratório define os próprios intervalos a partir do método e do analisador que usa, e são esses que devem constar no laudo.

ParâmetroSangue arterialSangue venosoUnidade
pH7,35 a 7,457,31 a 7,41sem unidade
pCO2 (pressão parcial de gás carbônico)35 a 4541 a 51mmHg
pO2 (pressão parcial de oxigênio)75 a 100não se aplicammHg
sO2 (saturação de oxigênio)95 a 100não se aplica%
HCO3– (bicarbonato)22 a 2622 a 28mmol/L
BE (excesso de base)-2 a +2-2 a +2mmol/L
Lactato0,5 a 1,60,5 a 2,2mmol/L
Sódio (Na+)135 a 146135 a 146mmol/L
Potássio (K+)3,5 a 5,03,5 a 5,0mmol/L
Cloro (Cl–)95 a 10595 a 105mmol/L
Cálcio ionizado (Ca2+)1,15 a 1,301,15 a 1,30mmol/L
Ânion gap (Na+ – Cl– – HCO3–)cerca de 12 (± 2)cerca de 12 (± 2)mmol/L
Intervalos de referência para adultos, compilados das fontes listadas ao final do artigo. Eletrólitos medidos no analisador de gases podem ter intervalos próprios, definidos por cada laboratório.

Importante: os intervalos de referência devem ser usados com cautela e somente como uma orientação para o clínico, porque dependem de fatores como sexo, idade e condições fisiológicas normais. Os intervalos de referência não devem ser considerados indicadores absolutos de saúde e doença. A interpretação de cada resultado cabe ao profissional de saúde, junto com a avaliação clínica do paciente.

O que cada parâmetro indica

  • pH: mostra se há acidemia (abaixo de 7,35) ou alcalemia (acima de 7,45). Um pH normal não descarta distúrbio, porque um distúrbio compensado ou dois distúrbios opostos podem manter o pH dentro da faixa.
  • pCO2: é o componente respiratório. Sobe na hipoventilação e cai na hiperventilação.
  • HCO3– e BE: representam o componente metabólico. Valores baixos sugerem acidose metabólica e valores altos, alcalose metabólica.
  • pO2 e sO2: avaliam a oxigenação. A pO2 esperada cai com a idade e com a altitude, e deve ser lida junto com a fração de oxigênio inspirado.
  • Lactato: é um marcador de hipoperfusão e de metabolismo anaeróbio, muito usado na avaliação e no acompanhamento da sepse.
  • Eletrólitos e ânion gap: ajudam a identificar a causa de uma acidose metabólica e a acompanhar reposições e perdas de fluidos.

Roteiro de interpretação em cinco passos

  1. Olhe o pH. Acidemia, alcalemia ou pH dentro da faixa.
  2. Identifique o distúrbio primário. Se a pCO2 explica a alteração do pH, o distúrbio é respiratório. Se o HCO3– explica, é metabólico.
  3. Avalie a compensação. Na acidose metabólica, a pCO2 esperada pode ser estimada pela fórmula de Winter: pCO2 = (1,5 × HCO3–) + 8 ± 2. Um valor fora desse intervalo sugere um distúrbio respiratório associado.
  4. Calcule o ânion gap nas acidoses metabólicas. Ânion gap aumentado aponta para acúmulo de ácidos, como lactato ou cetoácidos. Ânion gap normal com cloro alto aponta para acidose hiperclorêmica. Em pacientes com albumina baixa, o valor esperado do ânion gap diminui, e o cálculo precisa ser corrigido.
  5. Relacione com a clínica e com a oxigenação. O resultado sempre precisa ser interpretado junto com o quadro do paciente, a fração de oxigênio inspirado e os exames anteriores.

Gasometria arterial ou venosa?

A amostra arterial continua sendo a referência para avaliar a oxigenação, porque a pO2 venosa não reflete a troca gasosa pulmonar. Já a amostra venosa é menos invasiva e costuma ser suficiente para acompanhar pH, bicarbonato, lactato e eletrólitos em muitos pacientes. Na amostra venosa, o pH tende a ser um pouco mais baixo e a pCO2 um pouco mais alta que na arterial, como mostra a tabela acima.

A importância do íon cloro na gasometria

O cloro é o principal ânion do líquido extracelular. Ele participa da regulação da osmolaridade, do volume de fluidos e da neutralidade elétrica, e mantém uma relação direta com o bicarbonato: quando um sobe, o outro tende a cair. Por isso, acompanhar o cloro junto com a gasometria ajuda a entender a origem de vários distúrbios ácido-base, principalmente em pacientes de UTI.

  • Cloro alto (hipercloremia): associado à acidose metabólica com ânion gap normal. Pode aparecer após infusão de grandes volumes de soro fisiológico, em diarreias importantes e em algumas doenças tubulares renais.
  • Cloro baixo (hipocloremia): frequentemente acompanha a alcalose metabólica, como em vômitos persistentes, drenagem gástrica e uso de diuréticos.
  • Controle de fluidos: em pacientes críticos, a monitorização do cloro orienta a escolha e o volume das soluções de reposição.

Os analisadores de gases que medem eletrólitos no mesmo cartucho ou sensor, como os da linha Radiometer, entregam pH, gases, cloro, lactato e cálcio ionizado a partir de uma única amostra de sangue total, o que agiliza a decisão clínica à beira do leito.

Cuidados na coleta que mudam o resultado

  • Bolhas de ar na seringa: alteram a pO2 e a pCO2. Elimine o ar logo após a coleta.
  • Tempo até a análise: o metabolismo das células continua na seringa e altera pO2, pCO2 e lactato. O ideal é analisar a amostra o quanto antes.
  • Anticoagulante: heparina líquida em excesso dilui a amostra e interfere nos eletrólitos, principalmente no cálcio ionizado. Seringas com heparina balanceada liofilizada reduzem esse problema.
  • Homogeneização: misture bem a amostra antes de inserir no analisador, para evitar erros de hemoglobina e de hematócrito.

Analisadores de gases sanguíneos Radiometer

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Fontes consultadas

Conteúdo informativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação clínica nem os valores de referência do laboratório responsável pelo exame.

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